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JPMorgan rebaixa o Brasil, Trump fala em “eleição fraudada” e Putin comemora: como o mundo viu o 4º mandato de Lula

Wall Street mandou vender títulos brasileiros e previu dólar a R$ 5,50. A direita latino-americana reconheceu antes de todos, Rússia e China saudaram a “soberania”, Milei se calou e Trump pôs o resultado em dúvida. O raio-x completo de como bancos, agências de risco, líderes e a grande imprensa mundial leram a vitória.

Lula agita a bandeira do Brasil ao lado de Geraldo Alckmin
Lula comemora a reeleição agitando a bandeira do Brasil, ao lado de Geraldo Alckmin, na noite de 25/10/2026. Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil
Por Apura Verdade Brasil · 27 de outubro de 2026 · relatórios de bancos, comunicados oficiais e imprensa internacional

Em resumo: o mundo leu a reeleição de Lula em duas línguas. A dos governos foi quase unânime: mais de 35 líderes reconheceram o resultado, inclusive presidentes de direita da América do Sul. A do dinheiro foi de alarme. O JPMorgan rebaixou a dívida brasileira, Barclays, ING, Commerzbank e Capital Economics previram fuga de capital, e todos cobram a mesma coisa: um plano fiscal crível. As exceções foram Washington, onde Trump disse que a eleição “parece ter sido fraudada”, e Buenos Aires, onde Milei ficou em silêncio. Rússia e China comemoraram falando em “soberania”.

Underweightnova recomendação do JPMorgan para a dívida soberana brasileira em dólar (equivale a vender)
15,5%taxa dos títulos do Tesouro no cenário pessimista do JPMorgan
~83%dívida pública sobre o PIB, segundo o Commerzbank, a maior desde 2021
35+chefes de Estado e de governo que reconheceram a vitória em 48 horas
O mundo diante do 4º mandato de Lula WALL STREET↓JPMorgan rebaixa WASHINGTON?Trump: “fraudada” BRICS✓Putin e China saúdam Bancos, agências de risco, líderes e imprensa internacional

Arte: Apura Verdade Brasil

1. Wall Street: “expostos a uma correção significativa”

O primeiro veredito veio dos bancos, ainda na noite de domingo. O JPMorgan, maior banco dos EUA, fez a mudança mais dura: rebaixou a dívida brasileira em dólar para underweight, o que na prática é recomendar venda, e abandonou a aposta de que o risco-país ficaria estável. O banco disse que os títulos brasileiros, que vinham rendendo mais que os de países com nota parecida, estão “expostos a uma correção significativa, a menos que (e até que) a pressão do mercado leve a concessões fiscais”. Também previu o circuit breaker de segunda-feira, que de fato aconteceu.

InstituiçãoO que disseFrase
JPMorganRebaixou a dívida soberana em dólar de neutra para underweight (venda); abandonou a aposta de risco-país estável (CDS); passou o real e os títulos em reais de overweight para marketweight; dívida corporativa de alto risco para underweight. Vê taxas do Tesouro de até 15,5% no cenário pessimista, dólar a R$ 5,50 e exportadoras (Suzano, Vale, Gerdau) melhores que o mercado.“Expostos a uma correção significativa, a menos que (e até que) a pressão do mercado leve a concessões fiscais.”
BarclaysDólar na faixa de R$ 5,50 e venda de cerca de 300 pontos-base nos títulos soberanos nos dias seguintes.“A vitória de Lula deve provocar movimentos desordenados nos mercados locais.”
Morgan StanleyEstimou reprecificação rápida de cerca de 200 pontos-base nos juros locais com a reversão do prêmio fiscal.—
CitiDestacou a preocupação dos investidores com política fiscal, estatais e agenda de reformas; avisou que a pressão sobre as ações pode continuar.—
Deutsche BankA questão-chave é se Lula conseguirá usar o Congresso mais conservador para estabelecer uma trajetória fiscal crível.—
Commerzbank (Volkmar Baur)Dívida pública perto de 83% do PIB e déficit nominal perto de 10% do PIB; a venda inicial pode ter exagerado, mas não deve se reverter logo.“Lula tem pouco espaço para decepcionar.”
ING (Chris Turner)Previu queda de dois dígitos na Bolsa e alertou que a posição fiscal deixa o Brasil exposto numa onda global de venda de títulos.“Esperem que os mercados brasileiros sejam duramente atingidos.”
Aviva Investors (Kurt Knowlson)Real mais fraco e juros longos mais altos podem ser necessários para impor disciplina fiscal, a menos que surja rápido um plano crível.“Esperamos uma reação negativa do mercado.”
Capital Economics (William Jackson)A vitória enterra as esperanças de reformas.Queda forte do real e das ações e alta dos juros “são prováveis”.
Verisk Maplecroft (Mariano Machado)Reforma fiscal sólida é o preço para o “Lula 4.0” recuperar a confiança do mercado.“Um plano crível para conter gastos vai dar o tom para 2027 e além.”

O recado é o mesmo em todas as casas: o problema não é a pessoa de Lula, é a conta. O mercado tinha apostado em Flávio e num ajuste fiscal. Com a reeleição, passou a precificar mais quatro anos do padrão que marcou 2026: R$ 298,4 bilhões em medidas na reta final, segundo a IFI. Os números do dia seguinte estão em “Pânico no mercado”.

Atenção a uma confusão comum: “o JPMorgan rebaixou o Brasil” não quer dizer que a nota de crédito do país caiu. O banco rebaixou a recomendação de investimento nos títulos. Quem dá a nota são as agências de risco.

2. As agências de risco: a nota que pode cair

AgênciaNota atual do BrasilDistância do grau de investimento
S&PBB2 degraus abaixo
FitchBB, perspectiva estável2 degraus abaixo
Moody’sBa11 degrau abaixo

Nenhuma das três agiu até a publicação deste texto. A Fitch já havia avisado que qualquer piora fiscal pode levar a rebaixamento, e a Moody’s mudou a perspectiva do Brasil por causa das contas públicas. Com dívida perto de 83% do PIB, déficit nominal perto de 10% e juros acima de 15% nos títulos longos, a pressão para uma revisão aumenta. Rebaixamento da nota encarece a dívida de governo, estados e empresas, e afasta fundos que só podem comprar papéis de países bem avaliados.

3. Os líderes: quem reconheceu e quem calou

GrupoReações
Direita latino-americanaSantiago Peña (Paraguai), Rodrigo Paz (Bolívia) e José Raúl Mulino (Panamá) foram os primeiros a felicitar, antes do anúncio do TSE. José Antonio Kast (Chile) ligou para Lula: “Chile e Brasil têm muito futuro em comum”. Keiko Fujimori (Peru), Daniel Noboa (Equador) e Abelardo de la Espriella (Colômbia) também reconheceram.
Esquerda latino-americanaClaudia Sheinbaum (México): “Viva a democracia, ganhou o povo do Brasil”. Miguel Díaz-Canel (Cuba): “vitória histórica”. Delcy Rodríguez (Venezuela): “O Brasil deu uma lição de que não se impõem nem os extremismos”. Yamandú Orsi (Uruguai) também saudou.
EuropaUrsula von der Leyen: “A democracia e o multilateralismo venceram no Brasil”. Pedro Sánchez: “O que aconteceu no Brasil vai acontecer na Espanha”. Emmanuel Macron, Friedrich Merz, Giorgia Meloni, Luís Montenegro e Volodymyr Zelensky felicitaram.
RússiaVladimir Putin enviou carta no dia 26: o resultado refletiria o apoio ao caminho do governo e à defesa da soberania nacional. Citou cooperação na ONU, no BRICS e no G20 e cumprimentou Lula pelos 81 anos.
ChinaSem mensagem pessoal de Xi Jinping. O porta-voz da chancelaria, Guo Jiakun, felicitou e, questionado sobre o pedido de Flávio para anular a eleição, respondeu: “A China respeita a escolha do povo brasileiro”.
Sul GlobalNarendra Modi (Índia) chamou Lula de amigo. Cyril Ramaphosa (África do Sul): “vitória do Sul Global e das forças progressistas”. Mensagens do Irã (Masoud Pezeshkian) e da Autoridade Palestina (Mahmoud Abbas).
OutrosMark Carney (Canadá), Lee Jae-myung (Coreia do Sul). Nos EUA, o senador Bernie Sanders, o prefeito de Nova York Zohran Mamdani e o governo da Califórnia.
SilêncioJavier Milei (Argentina) não havia se manifestado até a publicação. Donald Trump falou no dia 26, para pôr o resultado em dúvida (seção 4).

Dois detalhes chamam atenção. Primeiro: a direita latino-americana reconheceu Lula mais rápido que a esquerda europeia. Peña, Paz e Mulino nem esperaram o TSE. Kast e Keiko Fujimori ligaram ou escreveram no mesmo dia. Para eles, o Brasil é vizinho e parceiro comercial grande demais para ser ignorado. Segundo: Moscou e Pequim usaram a vitória como mensagem política. Putin falou em “defesa da soberania nacional”. A China respondeu ao pedido de anulação de Flávio com um recado indireto aos EUA.

4. Trump: “pareceu mais uma eleição fraudada”

Na segunda-feira, 26, em Miami, Donald Trump disse que gosta de Lula, mas que a eleição “parece ter sido fraudada”. Citou a prorrogação do horário de votação: “Com a prorrogação do horário de votação, foi muito estranho”. E completou: “Não tomei partido, mas pareceu mais uma eleição fraudada.” Não apresentou provas. Questionado se tomaria alguma medida, respondeu que é presidente dos EUA, não do Brasil.

Segundo a imprensa, um comunicado de felicitação estava pronto no Departamento de Estado, mas os diplomatas receberam ordem de segurá-lo. Auxiliares de Trump perguntaram a aliados de Flávio se ele aceitaria o resultado antes de decidir a resposta. Celso Amorim, assessor internacional de Lula, criticou Trump e culpou a Meta por supostamente limitar o alcance dos posts de Lula. Para Brian Winter, editor da Americas Quarterly, as falas de Trump também sinalizam certa distância da família Bolsonaro, e Washington pode acabar aceitando o resultado, como fizeram os vizinhos.

O que o Apura encontrou. Baixamos e conferimos os boletins, os registros digitais do voto e os logs das 497.879 urnas do Brasil. A soma bate com o total do TSE, e não encontramos fraude na contagem (a análise não inclui o código-fonte da urna). O problema real desta eleição, que Trump tocou de passagem, é outro: a prorrogação das 17h01, que quebrou a isonomia entre eleitores, e o uso da máquina pública na reta final. Falar em “fraude” sem prova enfraquece justamente as críticas que têm prova. Veja “O Brasil perdeu”.

5. A grande imprensa mundial

VeículoComo leu a vitória
Financial Times (Reino Unido)Revés para a ambição de Trump de ampliar a influência dos EUA na região; disputa “voto a voto”.
Wall Street Journal (EUA)Resultado surpreendente, que prolonga uma das carreiras políticas mais longas da América Latina; derrota amarga dos conservadores, que ganharam terreno no 1º turno.
New York Times (EUA)Recado ao movimento conservador: interrompeu uma sequência de sete vitórias da direita na região em 18 meses.
Washington Post (EUA)Freio à guinada à direita na América Latina.
CNBC (EUA)Quarto mandato inédito, depois de perder o 1º turno; real perdeu cerca de 10,5%.
AFP / France 24“A vitória de Lula abala os mercados com medo de gastança”; dívida acima de 80% do PIB e juros de 13,75%.
Al Jazeera (Catar)Real despenca e a Bolsa aciona o circuit breaker depois da reeleição.
BBC (Reino Unido)Disputa apertada, voto a voto.
El País (Espanha)“Virada épica” que freia a extrema direita e dá “um balão de oxigênio” à esquerda no mundo.
Le Monde (França)O Brasil não virou à direita como Argentina, Chile e Colômbia; Lula virou o placar com a queda da abstenção, de 21,08% para 19,21%.
Clarín (Argentina)Feito extraordinário que contraria o plano de Trump e Marco Rubio para a região.
Observador (Portugal)Bolsa e real afundam após a reeleição.

Há um padrão. Na política, a imprensa internacional leu a eleição como um capítulo da disputa entre Trump e seus adversários na América Latina: a vitória de Lula seria um freio à onda conservadora. Na economia, a leitura foi a de Wall Street: medo de gasto. Quase nenhum grande veículo estrangeiro tratou da prorrogação da votação ou do pacote de bondades da reta final. Os que mencionaram a decisão de Zanin o fizeram como “polêmica”.

6. O Brasil no tabuleiro do mundo

7. O que o mundo vai cobrar

8. Perguntas e respostas

O Brasil foi rebaixado? Não pelas agências de risco, pelo menos até agora. O JPMorgan rebaixou a recomendação para os títulos brasileiros, o que significa dizer aos clientes que reduzam a exposição ao país. A nota de crédito continua BB (S&P e Fitch) e Ba1 (Moody’s).

Trump não reconheceu a vitória de Lula? Ele disse que a eleição “parece ter sido fraudada”, sem provas, e o comunicado do Departamento de Estado foi segurado. Não houve, até agora, reconhecimento formal dos EUA.

Quem reconheceu? Mais de 35 governos, entre eles os de Paraguai, Bolívia, Panamá, Chile, Peru, Equador, Colômbia, México, França, Alemanha, Itália, Espanha, Portugal, Canadá, Índia, Rússia, China, África do Sul e a Comissão Europeia.

O mercado pode se recuperar? Para o Commerzbank, a venda inicial pode ter exagerado, mas não deve se reverter rápido. A recuperação depende de sinais fiscais concretos.

Os governos do mundo reconheceram Lula. O dinheiro do mundo pediu garantias. Entre o aplauso de Moscou e Pequim, o silêncio de Buenos Aires e a desconfiança de Washington, o Brasil começa o quarto mandato de Lula mais isolado do Ocidente que paga as contas e mais próximo de quem bate palmas. Leia também: “E agora?”.

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Fontes: bancos — InfoMoney (JPMorgan), CNN Brasil, InfoMoney, Reuters/Yahoo Finance, FXStreet (Commerzbank), AFP/France 24, Yahoo Finance UK, Al Jazeera, CNBC; agências de risco — SpaceMoney (Fitch), Gazeta do Povo (Moody’s), Mais Retorno (S&P); líderes — CNN Brasil, Times Brasil, SBT News, Diário de Pernambuco, NC News; Trump — Estado de Minas/Folhapress; especialistas — Americas Quarterly; imprensa internacional — InfoMoney, CNN Brasil, Gazeta do Povo, Observador; auditoria das urnas — Apura Verdade Brasil.

Este texto é uma análise com opinião e não é recomendação de investimento. Os fatos têm fonte.