Em resumo: o mundo leu a reeleição de Lula em duas línguas. A dos governos foi quase unânime: mais de 35 líderes reconheceram o resultado, inclusive presidentes de direita da América do Sul. A do dinheiro foi de alarme. O JPMorgan rebaixou a dívida brasileira, Barclays, ING, Commerzbank e Capital Economics previram fuga de capital, e todos cobram a mesma coisa: um plano fiscal crível. As exceções foram Washington, onde Trump disse que a eleição “parece ter sido fraudada”, e Buenos Aires, onde Milei ficou em silêncio. Rússia e China comemoraram falando em “soberania”.
Arte: Apura Verdade Brasil
1. Wall Street: “expostos a uma correção significativa”
O primeiro veredito veio dos bancos, ainda na noite de domingo. O JPMorgan, maior banco dos EUA, fez a mudança mais dura: rebaixou a dívida brasileira em dólar para underweight, o que na prática é recomendar venda, e abandonou a aposta de que o risco-país ficaria estável. O banco disse que os títulos brasileiros, que vinham rendendo mais que os de países com nota parecida, estão “expostos a uma correção significativa, a menos que (e até que) a pressão do mercado leve a concessões fiscais”. Também previu o circuit breaker de segunda-feira, que de fato aconteceu.
| Instituição | O que disse | Frase |
|---|---|---|
| JPMorgan | Rebaixou a dívida soberana em dólar de neutra para underweight (venda); abandonou a aposta de risco-país estável (CDS); passou o real e os títulos em reais de overweight para marketweight; dívida corporativa de alto risco para underweight. Vê taxas do Tesouro de até 15,5% no cenário pessimista, dólar a R$ 5,50 e exportadoras (Suzano, Vale, Gerdau) melhores que o mercado. | “Expostos a uma correção significativa, a menos que (e até que) a pressão do mercado leve a concessões fiscais.” |
| Barclays | Dólar na faixa de R$ 5,50 e venda de cerca de 300 pontos-base nos títulos soberanos nos dias seguintes. | “A vitória de Lula deve provocar movimentos desordenados nos mercados locais.” |
| Morgan Stanley | Estimou reprecificação rápida de cerca de 200 pontos-base nos juros locais com a reversão do prêmio fiscal. | — |
| Citi | Destacou a preocupação dos investidores com política fiscal, estatais e agenda de reformas; avisou que a pressão sobre as ações pode continuar. | — |
| Deutsche Bank | A questão-chave é se Lula conseguirá usar o Congresso mais conservador para estabelecer uma trajetória fiscal crível. | — |
| Commerzbank (Volkmar Baur) | Dívida pública perto de 83% do PIB e déficit nominal perto de 10% do PIB; a venda inicial pode ter exagerado, mas não deve se reverter logo. | “Lula tem pouco espaço para decepcionar.” |
| ING (Chris Turner) | Previu queda de dois dígitos na Bolsa e alertou que a posição fiscal deixa o Brasil exposto numa onda global de venda de títulos. | “Esperem que os mercados brasileiros sejam duramente atingidos.” |
| Aviva Investors (Kurt Knowlson) | Real mais fraco e juros longos mais altos podem ser necessários para impor disciplina fiscal, a menos que surja rápido um plano crível. | “Esperamos uma reação negativa do mercado.” |
| Capital Economics (William Jackson) | A vitória enterra as esperanças de reformas. | Queda forte do real e das ações e alta dos juros “são prováveis”. |
| Verisk Maplecroft (Mariano Machado) | Reforma fiscal sólida é o preço para o “Lula 4.0” recuperar a confiança do mercado. | “Um plano crível para conter gastos vai dar o tom para 2027 e além.” |
O recado é o mesmo em todas as casas: o problema não é a pessoa de Lula, é a conta. O mercado tinha apostado em Flávio e num ajuste fiscal. Com a reeleição, passou a precificar mais quatro anos do padrão que marcou 2026: R$ 298,4 bilhões em medidas na reta final, segundo a IFI. Os números do dia seguinte estão em “Pânico no mercado”.
Atenção a uma confusão comum: “o JPMorgan rebaixou o Brasil” não quer dizer que a nota de crédito do país caiu. O banco rebaixou a recomendação de investimento nos títulos. Quem dá a nota são as agências de risco.
2. As agências de risco: a nota que pode cair
| Agência | Nota atual do Brasil | Distância do grau de investimento |
|---|---|---|
| S&P | BB | 2 degraus abaixo |
| Fitch | BB, perspectiva estável | 2 degraus abaixo |
| Moody’s | Ba1 | 1 degrau abaixo |
Nenhuma das três agiu até a publicação deste texto. A Fitch já havia avisado que qualquer piora fiscal pode levar a rebaixamento, e a Moody’s mudou a perspectiva do Brasil por causa das contas públicas. Com dívida perto de 83% do PIB, déficit nominal perto de 10% e juros acima de 15% nos títulos longos, a pressão para uma revisão aumenta. Rebaixamento da nota encarece a dívida de governo, estados e empresas, e afasta fundos que só podem comprar papéis de países bem avaliados.
3. Os líderes: quem reconheceu e quem calou
| Grupo | Reações |
|---|---|
| Direita latino-americana | Santiago Peña (Paraguai), Rodrigo Paz (Bolívia) e José Raúl Mulino (Panamá) foram os primeiros a felicitar, antes do anúncio do TSE. José Antonio Kast (Chile) ligou para Lula: “Chile e Brasil têm muito futuro em comum”. Keiko Fujimori (Peru), Daniel Noboa (Equador) e Abelardo de la Espriella (Colômbia) também reconheceram. |
| Esquerda latino-americana | Claudia Sheinbaum (México): “Viva a democracia, ganhou o povo do Brasil”. Miguel Díaz-Canel (Cuba): “vitória histórica”. Delcy Rodríguez (Venezuela): “O Brasil deu uma lição de que não se impõem nem os extremismos”. Yamandú Orsi (Uruguai) também saudou. |
| Europa | Ursula von der Leyen: “A democracia e o multilateralismo venceram no Brasil”. Pedro Sánchez: “O que aconteceu no Brasil vai acontecer na Espanha”. Emmanuel Macron, Friedrich Merz, Giorgia Meloni, Luís Montenegro e Volodymyr Zelensky felicitaram. |
| Rússia | Vladimir Putin enviou carta no dia 26: o resultado refletiria o apoio ao caminho do governo e à defesa da soberania nacional. Citou cooperação na ONU, no BRICS e no G20 e cumprimentou Lula pelos 81 anos. |
| China | Sem mensagem pessoal de Xi Jinping. O porta-voz da chancelaria, Guo Jiakun, felicitou e, questionado sobre o pedido de Flávio para anular a eleição, respondeu: “A China respeita a escolha do povo brasileiro”. |
| Sul Global | Narendra Modi (Índia) chamou Lula de amigo. Cyril Ramaphosa (África do Sul): “vitória do Sul Global e das forças progressistas”. Mensagens do Irã (Masoud Pezeshkian) e da Autoridade Palestina (Mahmoud Abbas). |
| Outros | Mark Carney (Canadá), Lee Jae-myung (Coreia do Sul). Nos EUA, o senador Bernie Sanders, o prefeito de Nova York Zohran Mamdani e o governo da Califórnia. |
| Silêncio | Javier Milei (Argentina) não havia se manifestado até a publicação. Donald Trump falou no dia 26, para pôr o resultado em dúvida (seção 4). |
Dois detalhes chamam atenção. Primeiro: a direita latino-americana reconheceu Lula mais rápido que a esquerda europeia. Peña, Paz e Mulino nem esperaram o TSE. Kast e Keiko Fujimori ligaram ou escreveram no mesmo dia. Para eles, o Brasil é vizinho e parceiro comercial grande demais para ser ignorado. Segundo: Moscou e Pequim usaram a vitória como mensagem política. Putin falou em “defesa da soberania nacional”. A China respondeu ao pedido de anulação de Flávio com um recado indireto aos EUA.
4. Trump: “pareceu mais uma eleição fraudada”
Na segunda-feira, 26, em Miami, Donald Trump disse que gosta de Lula, mas que a eleição “parece ter sido fraudada”. Citou a prorrogação do horário de votação: “Com a prorrogação do horário de votação, foi muito estranho”. E completou: “Não tomei partido, mas pareceu mais uma eleição fraudada.” Não apresentou provas. Questionado se tomaria alguma medida, respondeu que é presidente dos EUA, não do Brasil.
Segundo a imprensa, um comunicado de felicitação estava pronto no Departamento de Estado, mas os diplomatas receberam ordem de segurá-lo. Auxiliares de Trump perguntaram a aliados de Flávio se ele aceitaria o resultado antes de decidir a resposta. Celso Amorim, assessor internacional de Lula, criticou Trump e culpou a Meta por supostamente limitar o alcance dos posts de Lula. Para Brian Winter, editor da Americas Quarterly, as falas de Trump também sinalizam certa distância da família Bolsonaro, e Washington pode acabar aceitando o resultado, como fizeram os vizinhos.
5. A grande imprensa mundial
| Veículo | Como leu a vitória |
|---|---|
| Financial Times (Reino Unido) | Revés para a ambição de Trump de ampliar a influência dos EUA na região; disputa “voto a voto”. |
| Wall Street Journal (EUA) | Resultado surpreendente, que prolonga uma das carreiras políticas mais longas da América Latina; derrota amarga dos conservadores, que ganharam terreno no 1º turno. |
| New York Times (EUA) | Recado ao movimento conservador: interrompeu uma sequência de sete vitórias da direita na região em 18 meses. |
| Washington Post (EUA) | Freio à guinada à direita na América Latina. |
| CNBC (EUA) | Quarto mandato inédito, depois de perder o 1º turno; real perdeu cerca de 10,5%. |
| AFP / France 24 | “A vitória de Lula abala os mercados com medo de gastança”; dívida acima de 80% do PIB e juros de 13,75%. |
| Al Jazeera (Catar) | Real despenca e a Bolsa aciona o circuit breaker depois da reeleição. |
| BBC (Reino Unido) | Disputa apertada, voto a voto. |
| El País (Espanha) | “Virada épica” que freia a extrema direita e dá “um balão de oxigênio” à esquerda no mundo. |
| Le Monde (França) | O Brasil não virou à direita como Argentina, Chile e Colômbia; Lula virou o placar com a queda da abstenção, de 21,08% para 19,21%. |
| Clarín (Argentina) | Feito extraordinário que contraria o plano de Trump e Marco Rubio para a região. |
| Observador (Portugal) | Bolsa e real afundam após a reeleição. |
Há um padrão. Na política, a imprensa internacional leu a eleição como um capítulo da disputa entre Trump e seus adversários na América Latina: a vitória de Lula seria um freio à onda conservadora. Na economia, a leitura foi a de Wall Street: medo de gasto. Quase nenhum grande veículo estrangeiro tratou da prorrogação da votação ou do pacote de bondades da reta final. Os que mencionaram a decisão de Zanin o fizeram como “polêmica”.
6. O Brasil no tabuleiro do mundo
- Contrapeso aos EUA. Para Daniela Campello, da Universidade Columbia, o Brasil passa a ser o principal contrapeso numa América do Sul cada vez mais alinhada a Washington. Ela lembra que o governo Trump “nunca escondeu sua preferência pelos Bolsonaro”.
- Mais BRICS. As mensagens de Putin, da China, da África do Sul, do Irã e da Índia mostram onde Lula encontra apoio mais entusiasmado. O risco é a relação com os EUA, maior investidor estrangeiro no país, ficar ainda mais tensa.
- Comércio. Alessandra Ribeiro, da Tendências, espera que o governo busque novos acordos comerciais para reduzir a dependência de China e EUA.
- Argentina. O silêncio de Milei sobre o maior parceiro do Mercosul é um sinal de relação fria pelos próximos anos.
7. O que o mundo vai cobrar
- O ministro da Fazenda. Para Alessandra Ribeiro, Lula precisa anunciar rápido os nomes da equipe econômica para evitar uma crise de curto prazo. Geraldo Alckmin é citado na imprensa como possível ministro.
- Um plano fiscal crível, com corte de gastos, não só promessa. É o ponto comum de JPMorgan, Deutsche Bank, Aviva e Verisk.
- Copom de 4 de novembro. O Banco Central decide se mantém o plano de cortar juros com o dólar acima de R$ 5,40.
- O Congresso mais conservador da história, nas palavras de Brian Winter, com o PL forte nas duas Casas. Pode ser obstáculo para os gastos, e também a âncora que o mercado procura.
- A relação com Trump: se e quando Washington reconhece o resultado.
8. Perguntas e respostas
O Brasil foi rebaixado? Não pelas agências de risco, pelo menos até agora. O JPMorgan rebaixou a recomendação para os títulos brasileiros, o que significa dizer aos clientes que reduzam a exposição ao país. A nota de crédito continua BB (S&P e Fitch) e Ba1 (Moody’s).
Trump não reconheceu a vitória de Lula? Ele disse que a eleição “parece ter sido fraudada”, sem provas, e o comunicado do Departamento de Estado foi segurado. Não houve, até agora, reconhecimento formal dos EUA.
Quem reconheceu? Mais de 35 governos, entre eles os de Paraguai, Bolívia, Panamá, Chile, Peru, Equador, Colômbia, México, França, Alemanha, Itália, Espanha, Portugal, Canadá, Índia, Rússia, China, África do Sul e a Comissão Europeia.
O mercado pode se recuperar? Para o Commerzbank, a venda inicial pode ter exagerado, mas não deve se reverter rápido. A recuperação depende de sinais fiscais concretos.
📁 Peça os relatórios completos
Auditoria de todas as 497 mil urnas e o relatório de abuso de poder, com cada medida, custo, data, fonte e artigo de lei.
Criar conta e pedir acessoEste texto é uma análise com opinião e não é recomendação de investimento. Os fatos têm fonte.
