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Pânico no mercado: Bolsa desaba 14%, dólar explode e Brasil tem o pior dia desde a pandemia

Bastou um dia de Lula reeleito: a B3 travou com circuit breaker, o Ibovespa apagou em horas todo o rali construído desde o 1º turno, o dólar deu o maior salto em 27 anos e bancos derreteram até 29%. Enquanto isso, Wall Street subia.

Lula na avenida Paulista no encerramento da campanha
Lula no encerramento da campanha, na avenida Paulista, em 24/10/2026. Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil
Por Apura Verdade Brasil · 26 de outubro de 2026 · dados de fechamento da B3, do câmbio, do mercado de juros e do Boletim Focus

Em resumo: na segunda-feira, 26 de outubro, primeiro pregão depois da reeleição de Lula, o Ibovespa despencou 13,88%, perdendo 28.474 pontos em um único dia e fechando aos 176.608. O dólar saltou 8,21%, a R$ 5,40, a maior alta diária desde a desvalorização do real em janeiro de 1999. Os juros de longo prazo subiram mais de 2,6 pontos percentuais, o risco-país disparou 26% e o Tesouro Nacional teve de cancelar leilões e recomprar R$ 7,1 bilhões em títulos para conter o estrago.

−13,88%Ibovespa: 176.608 pontos. Na mínima do dia, 169.516 (queda de mais de 17%). Pior dia desde março de 2020
+8,21%Dólar: R$ 5,40 no fechamento, R$ 5,60 na máxima. Maior alta em um dia desde janeiro de 1999
+2,67 p.p.Juros futuros para 2031: de 12,58% para 15,24% em um dia (chegou a 15,94%)
+26%Risco-país (CDS de 5 anos): 151,6 pontos, o maior desde julho de 2025

1. A segunda-feira negra

O pânico começou antes mesmo da abertura. Em Nova York, o EWZ — fundo que replica as ações brasileiras negociado nos Estados Unidos — caía 27,46% no pré-mercado. Quando a B3 abriu, o Ibovespa afundou mais de 10% em minutos e acionou o circuit breaker, a trava automática que suspende todos os negócios por 30 minutos. Foi a primeira vez desde a pandemia, em março de 2020.

A pausa não acalmou ninguém. Na volta, o índice seguiu caindo até a mínima de 169.516 pontos, queda de mais de 17%. No câmbio, o dólar bateu R$ 5,6049 na máxima. A Ptax, taxa oficial do Banco Central que corrige contratos e dívidas, subiu 9,19%, para R$ 5,5007. O volume negociado na Bolsa ficou entre R$ 77 bilhões e R$ 89 bilhões, várias vezes a média de um dia normal: era gente vendendo tudo o que podia.

Detalhe que diz muito: o tombo foi só do Brasil. No mesmo dia, em Wall Street, o S&P 500 subiu 0,70%, o Dow Jones 0,28% e o Nasdaq 0,82%. Não houve crise global, nem guerra, nem pandemia. O gatilho foi o resultado da eleição.

2. Do recorde ao abismo: o “rali Flávio” apagado em horas

Para entender o tamanho da queda, é preciso olhar o caminho até ela. Na sexta-feira antes do primeiro turno, 2 de outubro, o Ibovespa fechou em 192.145 pontos. No dia 5, depois que Flávio Bolsonaro terminou o primeiro turno na frente — 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% de Lula —, a Bolsa disparou 7,70%, para 206.912 pontos, recorde histórico, e chegou a passar de 209 mil durante o pregão. Foi a maior alta em um dia em seis anos e superou a reação ao primeiro turno de 2022 (5,54%).

Ibovespa em 2026: do recorde ao tombo

161.124jan/2026início do ano192.1452/10véspera 1º turno206.9125/10Flávio lidera205.08323/10véspera 2º turno176.60826/10Lula reeleito

O ponto “início de 2026” é estimado a partir da alta de 9,61% acumulada no ano até 26/10. Demais pontos: fechamentos oficiais.

Entre os dois turnos, o mercado manteve a aposta. O Ibovespa acumulou alta de 6,9%, uma valorização entre turnos superada apenas nas eleições de 2002 e 2006, segundo a Elos Ayta. Os estrangeiros colocaram R$ 20,15 bilhões na Bolsa em outubro, com recorde de R$ 10 bilhões em um único dia, justamente em 5 de outubro. O dólar caiu de R$ 5,21 para R$ 4,98. Uma pesquisa do Citi com investidores mostrou que quase metade (49,3%) esperava nova alta acima de 5% se Flávio vencesse. “O mercado está apostando na vitória de Flávio, por mais que seja apertadíssima”, resumiu à Reuters Jefferson Rugik, da Correparti. O último Datafolha, de 22 de outubro, mostrava empate em 50% a 50%.

O resultado do segundo turno virou o jogo, e o mercado desfez a aposta de uma vez. Em um único pregão, o Ibovespa devolveu toda a alta conquistada desde o primeiro turno e mais um pouco: fechou 8% abaixo do nível de 2 de outubro, antes de qualquer voto ser contado. O dólar, que vinha de queda de 9,1% no ano, voltou ao patamar anterior às eleições.

A alta do ano foi por causa de Flávio? Em boa parte, sim. No ano inteiro, até a véspera do 2º turno, o Ibovespa subia cerca de 27%. Mais de um terço desse ganho veio só depois do 1º turno, quando a vitória de Flávio passou a ser o cenário mais provável. Uma parte da alta, porém, já vinha de antes, com a entrada de estrangeiros desde janeiro e a queda dos juros longos. O Goldman Sachs atribuía 85% da alta do índice aos juros de longo prazo, justamente os que dispararam 2,6 pontos na segunda-feira. A alta de 9,61% que “sobra” no ano é o que restou do que já existia antes da eleição.

3. As ações que derreteram

Maiores quedas do dia

Magazine Luiza (MGLU3)-58,23%
Vamos (VAMO3)-56,79%
Hapvida (HAPV3)-54,93%
C&A (CEAB3)-47,47%
Assaí (ASAI3)-42,97%
Cogna (COGN3)-38,39%
B3 (B3SA3)-36,28%
Auren (AURE3)-29,40%
Banco do Brasil (BBAS3)-29,33%
Bradesco (BBDC4)-21,70%
Itaú (ITUB4)-13,66%
Petrobras (PETR4)-8,18%
Santander (SANB11)-4,47%

Setores

Imobiliário-28,63%
Small caps-26,52%
Consumo-26,14%
Ibovespa-13,88%

As que subiram (exportadoras, que ganham com o dólar alto)

Suzano (SUZB3)+10,08%
Embraer (EMBJ3)+8,89%
WEG (WEGE3)+4,21%
Vale (VALE3)+4,01%

Bancos: o Banco do Brasil caiu 29,33%, a maior queda entre os grandes bancos. É o banco que mais depende das decisões do governo: crédito subsidiado, renegociação de dívidas e programas oficiais passam por ele. Bradesco perdeu 21,70% e Itaú 13,66%. A própria B3, dona da Bolsa, desabou 36,28%: com menos negócios, menos estrangeiros e menos aberturas de capital, ela ganha menos.

Consumo e crédito: as maiores quedas vieram de empresas que vivem de juros baixos e de consumidor com dinheiro no bolso. Magazine Luiza perdeu mais da metade do valor em um dia (−58,23%), e também desabaram Vamos (−56,79%), Hapvida (−54,93%), C&A (−47,47%), Assaí (−42,97%) e Cogna (−38,39%). O índice imobiliário caiu 28,63% e o de small caps 26,52%. Juros longos mais altos encarecem financiamentos e derrubam o valor dessas empresas.

Petrobras: recuou 8,18%. A presidente da estatal, Magda Chambriard, chamou o movimento de “especulativo” e disse que ele não reflete os fundamentos da empresa. Com o dólar mais caro, porém, o desafio aumenta: a Petrobras importa parte do combustível e o preço internacional do petróleo é cotado em dólar.

Quem ganhou: Suzano (+10,08%), Embraer (+8,89%), WEG (+4,21%) e Vale (+4,01%). Todas vendem em dólar no exterior e passam a receber mais reais por cada venda.

4. Em perspectiva: um tombo de livro de história

Quedas desse tamanho são raras. Na história do Ibovespa, poucas passaram de 13% em um dia, e quase todas vieram de choques que pararam o mundo ou o país, como um plano econômico que congelou a poupança ou uma pandemia. A de 26 de outubro de 2026 entrou nessa lista por causa de uma eleição.

DataO que aconteceuIbovespa no dia
21/03/1990Plano Collor bloqueia a poupança−22,27%
12/03/2020Pandemia de covid-19−14,78%
26/10/2026Lula reeleito−13,88%
18/05/2017“Joesley Day”: delação da JBS atinge Michel Temer−8,80%

O contraste com outras eleições também é grande. Nas duas últimas vezes em que o PT venceu um segundo turno, o mercado reagiu de forma muito mais branda:

Primeiro pregão após o 2º turnoIbovespaDólar
27/10/2014: Dilma reeleita−2,77% (chegou a −6%)+2,68% (R$ 2,52)
31/10/2022: Lula eleito+1,31%−2,54% (R$ 5,17)
26/10/2026: Lula reeleito−13,88%+8,21% (R$ 5,40)

A diferença tem explicação: em 2014 e em 2022, o resultado já era esperado pelo mercado. Em 2026, a aposta era a vitória da oposição. O preço dos ativos tinha subido contando com ela. Quanto maior a aposta, maior o tombo quando ela não se confirma.

5. Quanto custou para você

Os percentuais parecem abstratos, mas viram dinheiro rápido. Veja quanto valia, no fechamento de segunda-feira, um investimento de R$ 10 mil feito no fechamento de sexta:

InvestimentoVirouPerda em um dia
R$ 10 mil num fundo que segue o IbovespaR$ 8.612−R$ 1.388
R$ 10 mil em Itaú (ITUB4)R$ 8.634−R$ 1.366
R$ 10 mil em Banco do Brasil (BBAS3)R$ 7.067−R$ 2.933
R$ 10 mil em ações da B3 (B3SA3)R$ 6.372−R$ 3.628
R$ 10 mil em Magazine Luiza (MGLU3)R$ 4.177−R$ 5.823

E quem precisa de dólar já sente a diferença. Com a moeda saindo de R$ 4,99 na sexta para R$ 5,40 na segunda (sem contar IOF e taxas):

CompraNa sexta (R$ 4,99)Na segunda (R$ 5,40)Ficou mais cara em
Compra de US$ 100 em site internacionalR$ 499R$ 540+R$ 41
Celular importado de US$ 1.000R$ 4.993R$ 5.403+R$ 410
Viagem de US$ 2.000 (passagem e hotel)R$ 9.986R$ 10.806+R$ 820
Intercâmbio de US$ 10.000R$ 49.930R$ 54.030+R$ 4.100

Cálculos do Apura Verdade Brasil com as variações oficiais de fechamento. Quem não vendeu não realizou a perda; os valores mostram quanto o patrimônio encolheu no dia.

6. Juros e risco-país: o Brasil ficou mais caro

O sinal mais grave não veio da Bolsa, mas do mercado de juros. As taxas dos contratos de DI futuro, que antecipam quanto o governo e as empresas vão pagar para tomar dinheiro emprestado, deram um salto raramente visto em um único dia:

ContratoFechamento 26/10Variação no dia
DI janeiro/202713,72%+0,25 p.p.
DI janeiro/202814,91%+2,08 p.p.
DI janeiro/202915,25%+2,66 p.p.
DI janeiro/203115,24%+2,67 p.p. (máxima de 15,94%)
DI janeiro/203315,25%—

Na prática, o mercado passou a cobrar juros de mais de 15% ao ano para emprestar ao Brasil por cinco anos ou mais, acima da própria Selic (hoje em 13,75%). O CDS de 5 anos, o “seguro contra calote” do país, subiu 26%, para 151,6 pontos. O Tesouro Nacional cancelou os leilões de títulos prefixados e atrelados à inflação previstos para a semana e recomprou cerca de R$ 7,1 bilhões em papéis. É o tipo de medida de emergência usada quando ninguém aceita comprar dívida pública a preço razoável.

O Boletim Focus divulgado na própria segunda-feira, com projeções coletadas até sexta, ficou velho em poucas horas. Os economistas previam dólar de R$ 5,05 no fim de 2026, R$ 0,35 abaixo do fechamento do dia. A inflação projetada para o ano, de 5,19%, já estava acima do teto da meta (4,5%). A Selic esperada para dezembro, de 13,25%, supunha cortes de 0,25 ponto em novembro e em dezembro. O IGP-M, índice que reajusta aluguéis, já subia para 5,61%. Com o câmbio a R$ 5,40 e juros longos acima de 15%, esses cortes passaram a ser uma dúvida. O primeiro teste é o Copom de 4 de novembro.

7. Por que o mercado entrou em pânico

Segundo analistas ouvidos pela imprensa, o mercado tinha precificado a troca de governo e uma política fiscal mais austera. Com a reeleição, passou a precificar mais quatro anos de gasto alto, o mesmo padrão do pacote de R$ 298,4 bilhões em medidas lançadas na reta final da campanha, segundo a Instituição Fiscal Independente. “Vai ser um dia difícil. O mercado vai reavaliar tudo”, resumiu Bruno Funchal, da Bradesco Asset. Sidney Lima, da Ouro Preto Investimentos, considerou elevado o risco de uma correção mais profunda. O Citi avisou que a pressão sobre as ações brasileiras pode continuar.

Há quem veja exagero. Para Fábio Murad, da Wiser Asset, a continuidade do governo, sozinha, não determina uma queda permanente. Para Gabriel Magno, da AW Capital, a queda é em boa parte a devolução de uma aposta que não se confirmou: os preços tinham subido contando com a troca de governo.

8. O mundo assistiu

A imprensa internacional tratou o resultado como uma surpresa política. O Wall Street Journal chamou a vitória de inesperada. O Financial Times viu um revés para a influência de Donald Trump na América Latina e descreveu uma disputa voto a voto. O New York Times destacou que a vitória interrompeu uma sequência de sete vitórias da direita na região em 18 meses. O Le Monde lembrou que Lula virou o placar em parte com a queda da abstenção, de 21,08% para 19,21%. O jornal português Observador registrou a manchete do dia nos mercados: Bolsa e real afundam após a reeleição. Parte da cobertura também mencionou a polêmica decisão do ministro Cristiano Zanin, do STF, que prorrogou a votação em algumas seções. O tema é tratado em “O Brasil perdeu”.

9. A conta vai chegar no seu bolso

❌ Impactos negativos

  • Combustíveis e importados mais caros: o dólar a R$ 5,40 pressiona a Petrobras e encarece eletrônicos, remédios, trigo e insumos.
  • Mais inflação: a projeção de 5,19% para 2026 foi feita com dólar a R$ 5,05 e já estourava o teto da meta.
  • Aluguel: o IGP-M, que reajusta muitos contratos, é sensível ao dólar e já subia para 5,61%.
  • Crédito mais caro: os juros futuros, que balizam financiamentos de imóveis e carros, subiram mais de 2,6 pontos em um dia.
  • Selic pode parar de cair: os cortes esperados para novembro e dezembro ficaram em dúvida.
  • Investimentos: quem tem ações ou fundos de ações perdeu, em um dia, cerca de 14%, e até 58% em papéis de varejo e bancos.
  • Dívida pública mais cara: com juros acima de 15%, o governo gasta mais para rolar a dívida, e a conta é paga com impostos.

✅ Impactos positivos

  • Exportadoras e agronegócio recebem mais reais por cada dólar vendido.
  • Quem tem dólar ou investimentos no exterior viu seu patrimônio subir em reais.
  • Títulos do Tesouro comprados agora travam juros acima de 15% ao ano.
  • O Ibovespa ainda sobe 9,61% no ano, mas fechou 8% abaixo do nível da véspera do 1º turno. O ganho que vinha da expectativa de vitória de Flávio sumiu.

10. E agora? O que observar

O mercado não vota, mas cobra a conta. Em um único dia, o Brasil apagou o rali construído desde o 1º turno, viu o dólar dar o maior salto em 27 anos e passou a pagar mais de 15% ao ano para se financiar. Um dia não define quatro anos, e parte da perda pode voltar nas próximas semanas. O recado, porém, foi claro: quem investe no Brasil cobra um preço maior pela continuidade do gasto que marcou a eleição. Leia também: “O Brasil perdeu”.

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Fontes: Agência Brasil (fechamento, recorde do dólar desde 1999); InfoMoney (ações, DI, CDS, leilões do Tesouro, analistas); CNN Brasil (circuit breaker, setores); Suno (pontos perdidos, fechamento de 23/10, ações, Wall Street, Citi); InfoMoney (rali entre turnos, fluxo estrangeiro, Datafolha, pesquisa do Citi, Goldman Sachs, Elos Ayta); Forbes e InfoMoney (recorde após o 1º turno e comparação com 2022); Boletim Focus de 26/10; InfoMoney e Observador (imprensa internacional); Times Brasil (Petrobras); IFI/CNN (pacote de R$ 298,4 bi). Congresso em Foco (mercado após a reeleição de 2014); Economic News Brasil (mercado após a eleição de 2022); BP Money (Plano Collor, maior queda da história); histórico de quedas do Ibovespa: B3. Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil, reproduzida com crédito. Gráficos: Apura Verdade Brasil.

Este texto é jornalístico e não é recomendação de investimento.