Em resumo: na segunda-feira, 26 de outubro, primeiro pregão depois da reeleição de Lula, o Ibovespa despencou 13,88%, perdendo 28.474 pontos em um único dia e fechando aos 176.608. O dólar saltou 8,21%, a R$ 5,40, a maior alta diária desde a desvalorização do real em janeiro de 1999. Os juros de longo prazo subiram mais de 2,6 pontos percentuais, o risco-país disparou 26% e o Tesouro Nacional teve de cancelar leilões e recomprar R$ 7,1 bilhões em títulos para conter o estrago.
1. A segunda-feira negra
O pânico começou antes mesmo da abertura. Em Nova York, o EWZ — fundo que replica as ações brasileiras negociado nos Estados Unidos — caía 27,46% no pré-mercado. Quando a B3 abriu, o Ibovespa afundou mais de 10% em minutos e acionou o circuit breaker, a trava automática que suspende todos os negócios por 30 minutos. Foi a primeira vez desde a pandemia, em março de 2020.
A pausa não acalmou ninguém. Na volta, o índice seguiu caindo até a mínima de 169.516 pontos, queda de mais de 17%. No câmbio, o dólar bateu R$ 5,6049 na máxima. A Ptax, taxa oficial do Banco Central que corrige contratos e dívidas, subiu 9,19%, para R$ 5,5007. O volume negociado na Bolsa ficou entre R$ 77 bilhões e R$ 89 bilhões, várias vezes a média de um dia normal: era gente vendendo tudo o que podia.
Detalhe que diz muito: o tombo foi só do Brasil. No mesmo dia, em Wall Street, o S&P 500 subiu 0,70%, o Dow Jones 0,28% e o Nasdaq 0,82%. Não houve crise global, nem guerra, nem pandemia. O gatilho foi o resultado da eleição.
2. Do recorde ao abismo: o “rali Flávio” apagado em horas
Para entender o tamanho da queda, é preciso olhar o caminho até ela. Na sexta-feira antes do primeiro turno, 2 de outubro, o Ibovespa fechou em 192.145 pontos. No dia 5, depois que Flávio Bolsonaro terminou o primeiro turno na frente — 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% de Lula —, a Bolsa disparou 7,70%, para 206.912 pontos, recorde histórico, e chegou a passar de 209 mil durante o pregão. Foi a maior alta em um dia em seis anos e superou a reação ao primeiro turno de 2022 (5,54%).
Ibovespa em 2026: do recorde ao tombo
O ponto “início de 2026” é estimado a partir da alta de 9,61% acumulada no ano até 26/10. Demais pontos: fechamentos oficiais.
Entre os dois turnos, o mercado manteve a aposta. O Ibovespa acumulou alta de 6,9%, uma valorização entre turnos superada apenas nas eleições de 2002 e 2006, segundo a Elos Ayta. Os estrangeiros colocaram R$ 20,15 bilhões na Bolsa em outubro, com recorde de R$ 10 bilhões em um único dia, justamente em 5 de outubro. O dólar caiu de R$ 5,21 para R$ 4,98. Uma pesquisa do Citi com investidores mostrou que quase metade (49,3%) esperava nova alta acima de 5% se Flávio vencesse. “O mercado está apostando na vitória de Flávio, por mais que seja apertadíssima”, resumiu à Reuters Jefferson Rugik, da Correparti. O último Datafolha, de 22 de outubro, mostrava empate em 50% a 50%.
O resultado do segundo turno virou o jogo, e o mercado desfez a aposta de uma vez. Em um único pregão, o Ibovespa devolveu toda a alta conquistada desde o primeiro turno e mais um pouco: fechou 8% abaixo do nível de 2 de outubro, antes de qualquer voto ser contado. O dólar, que vinha de queda de 9,1% no ano, voltou ao patamar anterior às eleições.
3. As ações que derreteram
Maiores quedas do dia
Setores
As que subiram (exportadoras, que ganham com o dólar alto)
Bancos: o Banco do Brasil caiu 29,33%, a maior queda entre os grandes bancos. É o banco que mais depende das decisões do governo: crédito subsidiado, renegociação de dívidas e programas oficiais passam por ele. Bradesco perdeu 21,70% e Itaú 13,66%. A própria B3, dona da Bolsa, desabou 36,28%: com menos negócios, menos estrangeiros e menos aberturas de capital, ela ganha menos.
Consumo e crédito: as maiores quedas vieram de empresas que vivem de juros baixos e de consumidor com dinheiro no bolso. Magazine Luiza perdeu mais da metade do valor em um dia (−58,23%), e também desabaram Vamos (−56,79%), Hapvida (−54,93%), C&A (−47,47%), Assaí (−42,97%) e Cogna (−38,39%). O índice imobiliário caiu 28,63% e o de small caps 26,52%. Juros longos mais altos encarecem financiamentos e derrubam o valor dessas empresas.
Petrobras: recuou 8,18%. A presidente da estatal, Magda Chambriard, chamou o movimento de “especulativo” e disse que ele não reflete os fundamentos da empresa. Com o dólar mais caro, porém, o desafio aumenta: a Petrobras importa parte do combustível e o preço internacional do petróleo é cotado em dólar.
Quem ganhou: Suzano (+10,08%), Embraer (+8,89%), WEG (+4,21%) e Vale (+4,01%). Todas vendem em dólar no exterior e passam a receber mais reais por cada venda.
4. Em perspectiva: um tombo de livro de história
Quedas desse tamanho são raras. Na história do Ibovespa, poucas passaram de 13% em um dia, e quase todas vieram de choques que pararam o mundo ou o país, como um plano econômico que congelou a poupança ou uma pandemia. A de 26 de outubro de 2026 entrou nessa lista por causa de uma eleição.
| Data | O que aconteceu | Ibovespa no dia |
|---|---|---|
| 21/03/1990 | Plano Collor bloqueia a poupança | −22,27% |
| 12/03/2020 | Pandemia de covid-19 | −14,78% |
| 26/10/2026 | Lula reeleito | −13,88% |
| 18/05/2017 | “Joesley Day”: delação da JBS atinge Michel Temer | −8,80% |
O contraste com outras eleições também é grande. Nas duas últimas vezes em que o PT venceu um segundo turno, o mercado reagiu de forma muito mais branda:
| Primeiro pregão após o 2º turno | Ibovespa | Dólar |
|---|---|---|
| 27/10/2014: Dilma reeleita | −2,77% (chegou a −6%) | +2,68% (R$ 2,52) |
| 31/10/2022: Lula eleito | +1,31% | −2,54% (R$ 5,17) |
| 26/10/2026: Lula reeleito | −13,88% | +8,21% (R$ 5,40) |
A diferença tem explicação: em 2014 e em 2022, o resultado já era esperado pelo mercado. Em 2026, a aposta era a vitória da oposição. O preço dos ativos tinha subido contando com ela. Quanto maior a aposta, maior o tombo quando ela não se confirma.
5. Quanto custou para você
Os percentuais parecem abstratos, mas viram dinheiro rápido. Veja quanto valia, no fechamento de segunda-feira, um investimento de R$ 10 mil feito no fechamento de sexta:
| Investimento | Virou | Perda em um dia |
|---|---|---|
| R$ 10 mil num fundo que segue o Ibovespa | R$ 8.612 | −R$ 1.388 |
| R$ 10 mil em Itaú (ITUB4) | R$ 8.634 | −R$ 1.366 |
| R$ 10 mil em Banco do Brasil (BBAS3) | R$ 7.067 | −R$ 2.933 |
| R$ 10 mil em ações da B3 (B3SA3) | R$ 6.372 | −R$ 3.628 |
| R$ 10 mil em Magazine Luiza (MGLU3) | R$ 4.177 | −R$ 5.823 |
E quem precisa de dólar já sente a diferença. Com a moeda saindo de R$ 4,99 na sexta para R$ 5,40 na segunda (sem contar IOF e taxas):
| Compra | Na sexta (R$ 4,99) | Na segunda (R$ 5,40) | Ficou mais cara em |
|---|---|---|---|
| Compra de US$ 100 em site internacional | R$ 499 | R$ 540 | +R$ 41 |
| Celular importado de US$ 1.000 | R$ 4.993 | R$ 5.403 | +R$ 410 |
| Viagem de US$ 2.000 (passagem e hotel) | R$ 9.986 | R$ 10.806 | +R$ 820 |
| Intercâmbio de US$ 10.000 | R$ 49.930 | R$ 54.030 | +R$ 4.100 |
Cálculos do Apura Verdade Brasil com as variações oficiais de fechamento. Quem não vendeu não realizou a perda; os valores mostram quanto o patrimônio encolheu no dia.
6. Juros e risco-país: o Brasil ficou mais caro
O sinal mais grave não veio da Bolsa, mas do mercado de juros. As taxas dos contratos de DI futuro, que antecipam quanto o governo e as empresas vão pagar para tomar dinheiro emprestado, deram um salto raramente visto em um único dia:
| Contrato | Fechamento 26/10 | Variação no dia |
|---|---|---|
| DI janeiro/2027 | 13,72% | +0,25 p.p. |
| DI janeiro/2028 | 14,91% | +2,08 p.p. |
| DI janeiro/2029 | 15,25% | +2,66 p.p. |
| DI janeiro/2031 | 15,24% | +2,67 p.p. (máxima de 15,94%) |
| DI janeiro/2033 | 15,25% | — |
Na prática, o mercado passou a cobrar juros de mais de 15% ao ano para emprestar ao Brasil por cinco anos ou mais, acima da própria Selic (hoje em 13,75%). O CDS de 5 anos, o “seguro contra calote” do país, subiu 26%, para 151,6 pontos. O Tesouro Nacional cancelou os leilões de títulos prefixados e atrelados à inflação previstos para a semana e recomprou cerca de R$ 7,1 bilhões em papéis. É o tipo de medida de emergência usada quando ninguém aceita comprar dívida pública a preço razoável.
O Boletim Focus divulgado na própria segunda-feira, com projeções coletadas até sexta, ficou velho em poucas horas. Os economistas previam dólar de R$ 5,05 no fim de 2026, R$ 0,35 abaixo do fechamento do dia. A inflação projetada para o ano, de 5,19%, já estava acima do teto da meta (4,5%). A Selic esperada para dezembro, de 13,25%, supunha cortes de 0,25 ponto em novembro e em dezembro. O IGP-M, índice que reajusta aluguéis, já subia para 5,61%. Com o câmbio a R$ 5,40 e juros longos acima de 15%, esses cortes passaram a ser uma dúvida. O primeiro teste é o Copom de 4 de novembro.
7. Por que o mercado entrou em pânico
Segundo analistas ouvidos pela imprensa, o mercado tinha precificado a troca de governo e uma política fiscal mais austera. Com a reeleição, passou a precificar mais quatro anos de gasto alto, o mesmo padrão do pacote de R$ 298,4 bilhões em medidas lançadas na reta final da campanha, segundo a Instituição Fiscal Independente. “Vai ser um dia difícil. O mercado vai reavaliar tudo”, resumiu Bruno Funchal, da Bradesco Asset. Sidney Lima, da Ouro Preto Investimentos, considerou elevado o risco de uma correção mais profunda. O Citi avisou que a pressão sobre as ações brasileiras pode continuar.
Há quem veja exagero. Para Fábio Murad, da Wiser Asset, a continuidade do governo, sozinha, não determina uma queda permanente. Para Gabriel Magno, da AW Capital, a queda é em boa parte a devolução de uma aposta que não se confirmou: os preços tinham subido contando com a troca de governo.
8. O mundo assistiu
A imprensa internacional tratou o resultado como uma surpresa política. O Wall Street Journal chamou a vitória de inesperada. O Financial Times viu um revés para a influência de Donald Trump na América Latina e descreveu uma disputa voto a voto. O New York Times destacou que a vitória interrompeu uma sequência de sete vitórias da direita na região em 18 meses. O Le Monde lembrou que Lula virou o placar em parte com a queda da abstenção, de 21,08% para 19,21%. O jornal português Observador registrou a manchete do dia nos mercados: Bolsa e real afundam após a reeleição. Parte da cobertura também mencionou a polêmica decisão do ministro Cristiano Zanin, do STF, que prorrogou a votação em algumas seções. O tema é tratado em “O Brasil perdeu”.
9. A conta vai chegar no seu bolso
❌ Impactos negativos
- Combustíveis e importados mais caros: o dólar a R$ 5,40 pressiona a Petrobras e encarece eletrônicos, remédios, trigo e insumos.
- Mais inflação: a projeção de 5,19% para 2026 foi feita com dólar a R$ 5,05 e já estourava o teto da meta.
- Aluguel: o IGP-M, que reajusta muitos contratos, é sensível ao dólar e já subia para 5,61%.
- Crédito mais caro: os juros futuros, que balizam financiamentos de imóveis e carros, subiram mais de 2,6 pontos em um dia.
- Selic pode parar de cair: os cortes esperados para novembro e dezembro ficaram em dúvida.
- Investimentos: quem tem ações ou fundos de ações perdeu, em um dia, cerca de 14%, e até 58% em papéis de varejo e bancos.
- Dívida pública mais cara: com juros acima de 15%, o governo gasta mais para rolar a dívida, e a conta é paga com impostos.
✅ Impactos positivos
- Exportadoras e agronegócio recebem mais reais por cada dólar vendido.
- Quem tem dólar ou investimentos no exterior viu seu patrimônio subir em reais.
- Títulos do Tesouro comprados agora travam juros acima de 15% ao ano.
- O Ibovespa ainda sobe 9,61% no ano, mas fechou 8% abaixo do nível da véspera do 1º turno. O ganho que vinha da expectativa de vitória de Flávio sumiu.
10. E agora? O que observar
- 4 de novembro, Copom: o Banco Central mantém o plano de cortar a Selic ou reage ao dólar e aos juros longos?
- Leilões do Tesouro: quando voltam e a que taxa. Juros acima de 15% em títulos longos são um termômetro da desconfiança.
- Petrobras: se o dólar ficar acima de R$ 5,40, a pressão por reajuste de gasolina e diesel aumenta.
- Estrangeiros: os R$ 20 bilhões que entraram em outubro ficam ou saem?
- Sinais fiscais: o nome do ministro da Fazenda, o Orçamento de 2027 e o destino das medidas da campanha. Foi isso que o mercado cobrou na segunda-feira.
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