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Análise Abuso de poderSTFUrnas

O Brasil perdeu

Uma eleição decidida por 3,5 pontos, com a votação prorrogada por um ministro do STF a pedido de uma das campanhas e com R$ 298,4 bilhões em medidas do governo na reta final.

Seção eleitoral em São Paulo no 2º turno de 2026
Seção eleitoral em São Paulo, 25/10/2026. Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil
Por Apura Verdade Brasil · 26 de outubro de 2026 · dados oficiais do TSE, do Tesouro, do TCU e do Portal da Transparência

No domingo, 25 de outubro, o Brasil reelegeu Luiz Inácio Lula da Silva com 64.256.232 votos, contra 59.826.041 de Flávio Bolsonaro. A diferença foi de 4.430.191 votos, ou 3,5 pontos percentuais dos votos válidos. No primeiro turno, nas mesmas urnas, Flávio estava à frente.

LULA51,79%64.256.232 votos
FLÁVIO BOLSONARO48,21%59.826.041 votos

O Brasil perdeu não por um número. Perdeu porque a disputa terminou desigual: de um lado, um candidato com a caneta do governo, que entre os dois turnos anunciou, sancionou, pagou e antecipou benefícios a dezenas de milhões de eleitores; do outro, um candidato que viu a regra do jogo mudar às 17h01 do dia da eleição.

1. A canetada das 17h01

Ministro Cristiano Zanin no plenário do STF
Ministro Cristiano Zanin, do STF, que prorrogou a votação às 17h01 de 25/10. Foto: Valter Campanato/Agência Brasil

Às 17h01 de domingo, quando a votação já tinha terminado em quase todo o país, o ministro Cristiano Zanin, do Supremo Tribunal Federal, atendeu a um pedido da coligação de Lula e prorrogou a votação até as 19h em todo o Brasil, alegando falta de transporte para eleitores. A campanha de Flávio também havia pedido prorrogação, mas apenas em 17 cidades do Sul e do Sudeste atingidas pela chuva.

A decisão chegou tarde e criou o pior dos mundos. Em São Paulo, mais de 80% das urnas já estavam encerradas quando a ordem chegou, segundo o TRE-SP. No Distrito Federal, as urnas fecharam antes de qualquer aviso. Cerca de uma hora depois, Zanin e o TSE esclareceram que a prorrogação valia só onde as urnas ainda estavam abertas. O TSE suspendeu a divulgação da apuração. Onde a urna ficou aberta, quem chegou pôde votar; onde fechou, ninguém pôde.

Dois pesos, duas medidas. Em 2022, no segundo turno, o então presidente do TSE, Alexandre de Moraes, negou pedido semelhante de prorrogação feito pelo PT. A prorrogação nacional da votação em uma eleição geral, por decisão de um ministro do STF, não tem precedente no país.
Eleitor colocando o dedo no leitor biométrico da urna
Identificação biométrica na seção eleitoral. Foto: Joédson Alves/Agência Brasil

Nós lemos os registros (logs) de todas as 497.879 urnas do segundo turno. Eles mostram o efeito da decisão:

34.420eleitores votaram depois das 17h
5.198urnas só foram encerradas às 19h, quase todas em capitais (Rio, São Paulo, Salvador, Recife, João Pessoa)
99%dessas urnas tinham fechado às 17h ou 18h no 1º turno (amostra de 400 logs)

Pela regra, só vota depois das 17h quem já estava na fila. Com a prorrogação, onde a seção seguiu aberta, quem chegou depois também pôde votar. Os 34.420 eleitores que votaram depois das 17h tiveram uma chance que milhões de brasileiros não tiveram: em São Paulo, mais de 80% das seções já estavam fechadas quando a ordem chegou; no Distrito Federal, as urnas foram encerradas antes de qualquer aviso. Quem chegou atrasado a uma dessas seções voltou para casa sem votar — enquanto, a poucos quilômetros, outra seção seguia aberta até as 19h.

Isonomia quebrada. O direito de votar é igual para todos (Constituição, art. 5º e art. 14). Uma regra que valeu para uns e não para outros, decidida no último minuto e a pedido de uma das campanhas, transformou eleitores com o mesmo direito em eleitores de primeira e de segunda classe. Parte desses 34.420 eleitores já estava na fila às 17h, como manda a regra; os demais só votaram porque a sua seção, por acaso, ainda estava aberta.

Em votos, o efeito foi pequeno perto da margem. Mas o problema não é a conta: é o precedente. Uma regra que vale para todos — a votação termina às 17h — foi mudada no minuto final, por um ministro, a pedido de uma das partes, de forma que só alcançou parte do país.

2. A máquina pública na reta final

Lula, Hugo Motta e Davi Alcolumbre no Palácio da Alvorada
26/08/2026: Lula, Hugo Motta e Davi Alcolumbre no Palácio da Alvorada, quando definiram as prioridades do Congresso — a primeira delas, o fim da escala 6x1. Foto: Pedro Gontijo/Senado Federal

A Instituição Fiscal Independente (IFI), órgão técnico do Senado, somou R$ 298,4 bilhões em medidas anunciadas pelo governo em 2026: R$ 93,8 bilhões de gasto direto e renúncia de impostos e R$ 185,7 bilhões de crédito subsidiado. Boa parte foi concentrada entre o primeiro e o segundo turno.

Quanto custaram as medidas (R$ bilhões)

Pacote total de 2026 (IFI)298,4
Crédito subsidiado185,7
Créditos extraordinários por MP (jan–out)124,9
Gasto direto + renúncia93,8
Subsídio a combustíveis pago até out.18,0
Perdão de dívidas dos MEIs12,6
Bolsa Família antecipado para 21/10~7,5
Promulgação da emenda que acabou com a escala 6x1
16/10/2026, nove dias antes do 2º turno: promulgação do fim da escala 6x1, com Lula na mesa do Congresso. Foto: Saulo Cruz/Agência Senado

O fim da escala 6x1 foi combinado por Lula com os presidentes da Câmara e do Senado em 26 de agosto. Na ocasião, Alcolumbre disse que a semana de 31 de agosto a 4 de setembro seria a última de votações antes da eleição. Ainda assim, a emenda foi votada no Senado em 14 de outubro, entre os turnos, e promulgada dois dias depois, com o candidato à reeleição presente. O governo diz que a medida beneficia quase 15 milhões de trabalhadores.

Microempreendedora costurando
A Agência Gov, canal oficial do governo, publicou em 19/10, durante o período em que a publicidade institucional é proibida: “R$ 12,5 bi em dívidas de MEIs serão zerados”. Imagem: Agência Gov/PGFN

O perdão das dívidas dos MEIs — R$ 12,57 bilhões para 3,6 milhões de microempreendedores, dentro de um pacote que o governo diz alcançar 17,6 milhões — foi aprovado pela Câmara em 14 de outubro e pelo Senado em 15, divulgado pela Agência Gov em 19, anunciado por Lula em comício em Juazeiro (BA) em 20 e sancionado em cerimônia no Palácio do Planalto em 21, quatro dias antes da eleição.

O Bolsa Família teve o piso reajustado de R$ 600 para R$ 691 (+15%) a partir de outubro. E uma portaria de 16 de outubro antecipou o pagamento: as famílias com NIS final 6, 7, 8, 9 e 0, que receberiam de 26 a 30 de outubro — depois da eleição —, passaram a receber em 21 de outubro. São cerca de 9,6 milhões de famílias e R$ 7,5 bilhões caindo na conta quatro dias antes do voto. Na mesma semana, o Pé-de-Meia pagou a 7ª parcela aos estudantes, de 19 a 26 de outubro.

Passageiros em ônibus
No mesmo ato da sanção do MEI, em 21/10, o governo enviou ao Congresso a PEC da Tarifa Zero nos fins de semana. Imagem: Agência Gov
DataMedidaAlcance / valor
25/09Desenrola 3.0 (MP 1.393)até 15 milhões de pessoas; custo de até R$ 9 bi
08/10Mais um crédito extraordinário para combustíveis (MP 1.395)R$ 7,5 bi; R$ 18 bi em subsídio pagos no ano até outubro
13/10Pé-de-Meia Universitário (promessa de campanha)R$ 700/mês; R$ 4,6 bi/ano a partir de 2027
14–16/10Fim da escala 6x1 votado e promulgado~15 milhões de trabalhadores
16/10Caixa suspende parcelas da dívida da Arena Corinthians, em reunião com ministro e torcida organizada~R$ 650 mi
16/10Portaria antecipa o Bolsa Família para 21/10~9,6 milhões de famílias, ~R$ 7,5 bi
19–26/10Pé-de-Meia: 7ª parcelaestudantes do ensino médio
21/10Sanção do perdão do MEI e envio da PEC da Tarifa ZeroR$ 12,57 bi; 17,6 milhões de MEIs; R$ 11,2 bi/ano

O Tribunal de Contas da União, ao aprovar com ressalvas as contas de 2025, registrou o que chamou de “contabilidade criativa” (ministro Augusto Nardes: R$ 48,7 bilhões de despesas retirados da meta fiscal) e, em agosto, ministros do TCU classificaram o financiamento do Pé-de-Meia e do Desenrola por fundos fora do Orçamento como “orçamento paralelo” e “puxadinho orçamentário”.

3. As urnas contaram certo — e é isso que torna o resto mais grave

Sede do Tribunal Superior Eleitoral em Brasília
Sede do TSE, em Brasília. Foto: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil

Baixamos e conferimos os boletins de urna, o registro digital dos votos e os logs de todas as urnas do segundo turno. A soma dos boletins bate com o total divulgado pelo TSE, o registro de cada voto bate com o boletim e não houve voto depois do encerramento das urnas. Não encontramos fraude na contagem.

O que a nossa análise inclui e o que não inclui. Examinamos os arquivos públicos baixados de todas as urnas: boletins de urna (BU), registros digitais do voto (RDV) e logs de funcionamento. A análise não inclui o código-fonte do software da urna nem o hardware, que só podem ser inspecionados nos procedimentos de fiscalização do TSE. Por isso, “não encontramos fraude na contagem” quer dizer que os registros de cada urna são coerentes entre si e com o total divulgado. Não é uma certificação do software. Os totais citados neste texto são os oficiais do TSE, que incluem os votos do exterior; os arquivos que examinamos são das 497.879 urnas no Brasil.

E a biometria? Os boletins mostram um número que chama atenção: 8.632.232 eleitores que têm digital cadastrada votaram sem ela, liberados pelo mesário com documento (6,75% de quem votou). Somados aos 7.251.576 que não têm biometria cadastrada, são 15,9 milhões de votos sem digital (12,4%). É um número alto, e o TSE deve explicações sobre por que a biometria falha tanto. Testamos se essas liberações favoreceram alguém. Não favoreceram: dentro de um mesmo município, as urnas com mais liberações sem digital deram a Lula praticamente a mesma votação que as demais (correlação de 0,01 em 497 mil urnas). E os estados com mais liberações incluem redutos de Flávio, como Rio Grande do Sul (8,5%) e Santa Catarina (7,5%). As 1.021 urnas com filas longas de liberações seguidas estão listadas, uma a uma, no relatório de auditoria.

O que os dados mostram é de onde veio a virada. Os eleitores dos outros candidatos do primeiro turno se dividiram quase meio a meio. A vantagem de Lula veio de quem tinha votado em branco, anulado ou não tinha ido votar — exatamente o eleitor que decide na última semana:

Saldo para Lula, por origem do voto no 1º turno (milhões de votos)

Nulos do 1º turno+1,57
Quem não votou no 1º turno+1,30
Brancos do 1º turno+1,22
Outros candidatos≈ 0

A contagem não foi o problema. O problema é o que aconteceu antes dela: um governo que usou o Orçamento, os bancos públicos e os canais oficiais para chegar à última semana com benefícios na mão de dezenas de milhões de eleitores — e um voto prorrogado, no último minuto, a pedido de quem governa.

4. O que foi barrado em 2022 e liberado em 2026

Flávio Bolsonaro em pronunciamento após o resultado
Flávio Bolsonaro, após o resultado, anunciou que vai pedir a anulação do pleito. Foto: Joédson Alves/Agência Brasil
Conduta2022 (Bolsonaro)2026 (Lula)
Prorrogar a votaçãoPedido do PT negado pelo TSEConcedida por ministro do STF às 17h01, a pedido da coligação de Lula
Aumentar benefício em ano eleitoralEC 123 (Auxílio de R$ 600) declarada inconstitucional pelo STF por ferir a igualdade entre candidatosBolsa Família +15% validado pelo STF como “recomposição”
Antecipar pagamento antes do 2º turnoTSE abriu investigação por abuso de poder (14/12/2022)Bolsa Família antecipado para 21/10 por portaria
Ato oficial usado como palanque7 de Setembro: Bolsonaro inelegível por 8 anosPromulgação do 6x1 e sanção do MEI com o candidato, entre os turnos
Canais oficiais na campanhaTSE proibiuPedido de suspensão negado; Agência Gov e ministérios publicaram durante o defeso

A lei eleitoral é a mesma. O artigo 73 da Lei 9.504 proíbe a distribuição gratuita de benefícios no ano da eleição, a publicidade institucional nos três meses anteriores e o uso promocional de programas sociais. O artigo 22 da Lei Complementar 64 pune o abuso de poder político e econômico com cassação e oito anos de inelegibilidade, e não exige provar quantos votos mudaram — basta a gravidade. O que precisa ser igual é a régua.

5. A virada em números

A eleição virou em três semanas. No primeiro turno, em 4 de outubro, Flávio Bolsonaro terminou na frente, com 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% de Lula. No segundo turno, Lula chegou a 51,79%. O que mudou não foi o voto de quem escolheu outro candidato no primeiro turno: esse eleitor se dividiu quase meio a meio. Mudou o comportamento de quem tinha ficado de fora.

Indicador1º turno (4/10)2º turno (25/10)
Flávio Bolsonaro (votos válidos)47,03%48,21%
Lula (votos válidos)45,16%51,79%
Abstenção21,08%19,21%
Saldo de Lula entre nulos, brancos e ausentes do 1º turno+4,09 milhões de votos (≈ 92% da margem final de 4,43 milhões)

É aqui que o calendário das medidas pesa. O eleitor que anula, vota em branco ou fica em casa costuma ser o de menor renda e o mais desligado da política. É o mesmo público do Bolsa Família antecipado, do perdão das dívidas dos MEIs, do Desenrola e do Pé-de-Meia, todos com dinheiro ou anúncio concentrados entre os dois turnos. Os dados não provam que um benefício comprou um voto, e a lei não exige essa prova. O artigo 22 da Lei Complementar 64 olha para a gravidade da conduta, não para a conta de votos.

6. O dia seguinte: o mercado votou contra

Na segunda-feira, 26 de outubro, o Ibovespa caiu 13,88% e acionou o circuit breaker pela primeira vez desde 2020. O dólar subiu 8,21%, a maior alta em um dia desde 1999. Os juros longos passaram de 15% ao ano e o risco-país subiu 26%. Em um único pregão, a Bolsa apagou toda a alta conquistada desde o primeiro turno. Quem investe no Brasil cobrou, à vista, o preço de mais quatro anos do gasto que marcou a eleição. Leia a reportagem completa: “Pânico no mercado”.

7. E agora? O que pode acontecer

8. Perguntas e respostas

A eleição foi fraudada? Nos arquivos de todas as urnas (boletins, RDV e logs), não encontramos fraude na contagem: os números batem entre si e com o TSE. A análise não inclui o código-fonte da urna. O problema que apontamos não é a contagem, mas as condições da disputa.

Quantas pessoas votaram depois das 17h? 34.420 eleitores, segundo os logs. Em 5.198 urnas, o encerramento foi às 19h.

A prorrogação mudou o resultado? Em votos, não: 34.420 votos é menos de 1% da margem de 4,4 milhões. O problema é a isonomia. Uma regra mudada no último minuto, a pedido de uma das partes, valeu para uns eleitores e não para outros.

Quanto o governo gastou na reta final? A Instituição Fiscal Independente somou R$ 298,4 bilhões em medidas em 2026, sendo R$ 93,8 bilhões de gasto direto e renúncia e R$ 185,7 bilhões de crédito subsidiado.

O que é abuso de poder político? É o uso da estrutura do Estado (orçamento, programas, cargos, canais oficiais) para desequilibrar a eleição. A punição é a cassação e a inelegibilidade por 8 anos (LC 64/1990, art. 22).

Onde estão os dados? Os relatórios completos, com cada urna, cada medida, data, fonte e artigo de lei, estão disponíveis para contas aprovadas. Peça acesso.

O Brasil perdeu quando a regra mudou no meio do jogo, quando o Estado virou cabo eleitoral e quando o que foi proibido para um foi permitido para outro. Cabe agora à Justiça Eleitoral, nas ações já propostas, aplicar a mesma lei, com a mesma régua, para os dois lados.
Leia também: Pânico no mercado: Bolsa desaba 14% e dólar explode após a reeleição

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Fontes: resultado e arquivos de urna — TSE; prorrogação da votação — Agência Brasil, Agência Brasil, Poder360, Forbes; pacote de medidas — IFI/CNN, Atlas Público, Portal da Transparência; 6x1 — Agência Senado, Agência Senado; MEI — Agência Gov, CNN; Bolsa Família — MDS; Pé-de-Meia — MEC; Caixa × Corinthians — CNN; TCU — contas de 2025, Poder360; 2022 — STF, ADI 7.212, Exame, TSE. Fotos: Agência Brasil, Agência Senado, STF e Agência Gov, reproduzidas com crédito conforme permitido pelas fontes.

Este texto é uma análise com opinião. Os fatos e números têm fonte; a caracterização jurídica das condutas cabe à Justiça Eleitoral.