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Os irmãos Batista voltam ao centro do poder, agora com mísseis

Cresceram com bilhões do BNDES no primeiro governo Lula, gravaram um presidente, delataram, foram presos, e não foram condenados por nenhum crime. Hoje vendem energia a carvão ao governo por R$ 12 bilhões, compraram a maior fabricante de mísseis do país e comemoraram a reeleição com ministros em casa.

Joesley Batista cercado por jornalistas em 2017
Joesley Batista cercado por jornalistas em São Paulo, em 2017, ano da delação da JBS. Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil
Por Apura Verdade Brasil · 26 de outubro de 2026 · reportagem com base em decisões, registros públicos e imprensa

Em resumo: todos são inocentes até que se prove o contrário, e os irmãos Batista não têm condenação criminal. Joesley e Wesley Batista, donos da J&F, holding da JBS, são o exemplo mais acabado de empresários que prosperam perto do poder. Em 2017 confessaram ter pago propina a centenas de políticos e gravaram o então presidente Michel Temer. Nove anos depois, não têm nenhuma condenação criminal, tiveram a multa bilionária suspensa no STF e estão mais fortes do que nunca. Em 2026 entraram na indústria de defesa, fecharam um contrato bilionário de energia com o governo e estiveram ao lado de Lula da campanha à noite da vitória.

R$ 8,1 biaportes da BNDESPar na JBS a partir de 2007
0condenações criminais dos irmãos, nove anos após a delação
R$ 10,3 bimulta da leniência suspensa por Toffoli em 2023
R$ 12 bicontrato de energia a carvão da J&F proposto pelo governo, até 2040
J&F Joesley e Wesley Batista 🥩 Carne ⚡ Energia 🌲 Celulose 🚀 Mísseis Do BNDES de 2007 à Avibras de 2026

Arte: Apura Verdade Brasil

1. A noite da vitória na casa de Joesley

Na noite de 25 de outubro, enquanto o país conhecia o resultado, Joesley Batista recebia em sua casa, em São Paulo, o ex-ministro Fernando Haddad e o ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, “em clima de comemoração”, segundo o site Terra Brasil Notícias. O mesmo relato diz que Joesley articula a permanência de Silveira no ministério, sem confirmação oficial. Silveira é o ministro responsável pelo contrato de energia da J&F (seção 5).

Não foi um encontro isolado. Em 31 de agosto, a um mês do primeiro turno, Lula reuniu 16 empresários e banqueiros no Palácio da Alvorada para “melhorar a relação com a elite econômica”. Joesley estava na mesa, com André Esteves e Rubens Menin. Do lado do governo: Lula, Geraldo Alckmin, Aloizio Mercadante (BNDES), Dario Durigan (Fazenda) e Edinho Silva (presidente do PT).

2. Como tudo começou: o BNDES

A JBS virou a maior empresa de carnes do mundo com dinheiro público. A partir de junho de 2007, no segundo mandato de Lula, a BNDESPar, braço de participações do BNDES, aportou cerca de R$ 8,1 bilhões na empresa. O dinheiro financiou a compra de frigoríficos no Brasil e no exterior, a começar pela americana Swift, com empréstimo de R$ 2,3 bilhões em 2007, e depois a Pilgrim’s Pride. Hoje a JBS controla cerca de 25% do mercado de carne bovina dos EUA e emprega mais de 70 mil pessoas no país.

Em 2017, a Operação Bullish, da PF, investigou esses aportes. A PF estimou prejuízo de R$ 1,2 bilhão por operações sem garantias e com dispensa indevida de prêmio. A área técnica do TCU calculou R$ 711,3 milhões e apontou que a direção do banco favoreceu a JBS na compra da Swift. A JBS sempre negou: diz que os aportes seguiram as regras e deram lucro ao banco.

3. 2017: a delação que parou o país

Em maio de 2017, veio a bomba. Joesley gravou o presidente Michel Temer no Palácio do Jaburu, e a delação dos executivos da JBS atingiu quase todo o sistema político. No dia seguinte, o “Joesley Day”, o Ibovespa caiu 8,80% e acionou o circuit breaker. Na delação, Joesley afirmou ter pago propina equivalente a 18,5% dos valores obtidos no BNDES, parte destinada ao PT.

O acordo com a Procuradoria-Geral da República foi generoso. Segundo o Correio Braziliense, livrou os irmãos de penas que, somadas, poderiam chegar a 2 mil anos de prisão, em troca de multa. Meses depois, a PGR apontou omissões no acordo e Joesley foi preso, em setembro de 2017. Saiu em março de 2018, com o passaporte retido.

4. Foram condenados? Não.

É comum ouvir que os irmãos Batista “foram condenados”. Os registros mostram o contrário: nove anos depois de confessarem crimes, não há condenação criminal contra eles. O que aconteceu:

ProcessoDesfecho
Insider trading no Joesley Day (CVM)Absolvidos em outubro de 2023, na esfera administrativa
Manipulação de ações da JBS em 2010 (CVM)Prescrito em dezembro de 2025, sem julgar o mérito; um diretor votou por multa de R$ 150 milhões
Caso BNDES–JBS (Operação Bullish)Guido Mantega e Luciano Coutinho absolvidos em março de 2023 por falta de prova da existência do fato
Acordo de leniência da J&F (R$ 10,3 bilhões)Multa suspensa por Dias Toffoli em dezembro de 2023, com acesso da empresa às mensagens da Operação Spoofing para pedir revisão
Ação de Michel Temer por ofensasJoesley condenado a indenizar Temer em R$ 300 mil, decisão confirmada pelo STJ em 2020. É a única condenação, e é cível

Ou seja: o empresário que confessou pagar propina a centenas de políticos saiu do maior escândalo de sua geração sem condenação, com a multa congelada e de volta ao conselho da JBS desde abril de 2024. Em 2025, a empresa estreou na Bolsa de Nova York. Em janeiro de 2027, Wesley Batista Filho, de 34 anos, assume como CEO global.

5. Energia: R$ 12 bilhões a carvão

No fim de 2024, o Congresso enfiou numa medida provisória do setor elétrico um “jabuti”, um artigo sem relação com o tema principal. Ele obriga a contratar, até 2040, as usinas a carvão que tinham contrato em dezembro de 2022. O texto não cita a J&F, mas a beneficia diretamente: a usina de Candiota, no Rio Grande do Sul, é da Âmbar, empresa do grupo. A ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, recomendou o veto. Lula sancionou em novembro de 2025, no ano da COP30.

Em fevereiro de 2026, o Ministério de Minas e Energia pôs em consulta pública o contrato: R$ 540,27 por MWh, 50,2% acima da média de R$ 359,50 das térmicas a carvão importado sem subsídio. São R$ 859,7 milhões por ano até 2040, mais de R$ 12 bilhões em valor presente, pagos na conta de luz. “Ainda precisamos dessas fontes energéticas para dar segurança ao sistema”, disse o ministro Alexandre Silveira, o mesmo que, segundo o relato, estava na casa de Joesley na noite da eleição. A J&F não comentou.

6. Agora, mísseis

Em agosto de 2026, a Globe Investimentos, veículo pessoal dos irmãos, comprou 100% da Nova AVB, que controla a Avibras, a maior indústria bélica do país. Fundada em 1961 por engenheiros do ITA, a Avibras fabrica o sistema de foguetes ASTROS e o míssil de cruzeiro MTC-300, e desenvolve o míssil balístico tático AV-SS-100. É classificada como Empresa Estratégica de Defesa (Lei 12.598/2012), com contratos com as Forças Armadas e clientes no exterior.

A empresa estava quebrada. Em recuperação judicial desde março de 2022, demitiu mais de 300 funcionários, ficou parada por anos e acumulou R$ 204,5 milhões em salários e verbas rescisórias atrasados. Em fevereiro de 2026, negociava com a saudita Black Storm Military Industries. Joesley já tinha participado de uma captação de R$ 300 milhões coordenada pelo Fundo Brasil Crédito, que abriu caminho para a compra. O valor do negócio não foi divulgado. O Cade aprovou sem restrições em 14 de setembro.

Na Câmara, o presidente da Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional, deputado Luiz Philippe de Orléans e Bragança, aprovou pedido de informações ao Ministério da Defesa sobre riscos à soberania e o acompanhamento do governo. A pergunta é legítima: um grupo que depende de contratos e decisões do governo passa a controlar a fabricante de mísseis cujo principal cliente é o próprio governo.

7. O “diplomata informal” de Lula com Trump

Em abril de 2026, numa reunião no Planalto, Lula comentou a dificuldade de falar com o governo americano. Joesley, presente, pegou o próprio celular e ligou para Donald Trump, que atendeu e conversou cerca de 40 minutos com Lula, segundo a Gazeta do Povo. Os Batista contrataram Marc Kasowitz, advogado pessoal de Trump por 15 anos, e doaram US$ 5 milhões à posse do presidente americano em 2025. Segundo o jornal, foi a maior contribuição individual ao evento. Joesley também tem negócios de energia e finanças na Venezuela e se reuniu com Nicolás Maduro e, depois, com Delcy Rodríguez.

8. A linha do tempo

QuandoO quê
2007–2011BNDESPar aporta cerca de R$ 8,1 bilhões na JBS; empréstimo de R$ 2,3 bilhões para comprar a americana Swift
mai/2017Delação da JBS e gravação de Michel Temer: o “Joesley Day” derruba o Ibovespa em 8,80%
set/2017–mar/2018Joesley fica preso; a prisão é revogada, com passaporte retido
mar/2023Guido Mantega e Luciano Coutinho, ex-presidente do BNDES, são absolvidos no caso BNDES–JBS
out/2023CVM absolve os irmãos da acusação de insider trading no Joesley Day
dez/2023Dias Toffoli suspende a multa de R$ 10,3 bilhões do acordo de leniência da J&F
abr/2024Joesley e Wesley voltam ao Conselho da JBS
mai/2025J&F paga R$ 15 bilhões e fica com 100% da Eldorado Celulose
nov/2025Lula sanciona o “jabuti” que obriga a contratar térmicas a carvão até 2040, contra a recomendação de Marina Silva
dez/2025Processo da CVM por manipulação de ações da JBS em 2010 prescreve; houve voto por multa de R$ 150 milhões
fev/2026Governo põe em consulta contrato de R$ 12 bilhões para comprar energia a carvão da usina de Candiota, da J&F
abr/2026No Planalto, Joesley liga do próprio celular para Donald Trump, que fala 40 minutos com Lula
ago/2026Joesley janta com Lula no Alvorada; Globe Investimentos, dos irmãos, compra 100% da Avibras
14/09/2026Cade aprova sem restrições a compra da Avibras
25/10/2026Na noite da reeleição, Joesley recebe Haddad e o ministro Alexandre Silveira em casa, segundo o site Terra Brasil Notícias

9. O que diz a lei

10. Perguntas e respostas

Os irmãos Batista foram condenados? Não criminalmente. Foram presos em 2017, fizeram delação e pagariam multa. Na CVM foram absolvidos de insider trading, e outro processo prescreveu. A única condenação é cível: indenizar Michel Temer em R$ 300 mil.

O contrato de energia já foi assinado? Foi à consulta pública em fevereiro de 2026. A lei obriga a contratação, mas o preço é definido pelo ministério.

A compra da Avibras está concluída? O Cade aprovou sem restrições em 14 de setembro de 2026. O valor não foi divulgado.

Os Batista também entraram em bebidas? Não por compra. Em outubro de 2026, a JBS lançou a Genu-in Solutions, que desenvolve ingredientes proteicos (colágeno e gelatina) para outras empresas, com projetos de bebidas prontas, águas proteicas e cervejas sem álcool, mirando um mercado global estimado em US$ 101 bilhões até 2030 (ND+). Não encontramos compra de cervejaria ou fabricante de bebidas.

Nenhum empresário é culpado por crescer. Mas quando o mesmo grupo cresce com o BNDES, confessa propina, escapa de toda condenação, tem a multa suspensa, ganha um contrato de energia 50% acima do mercado e compra a fabricante de mísseis do país, sempre perto do mesmo governo, o cidadão tem o direito de perguntar quem está servindo a quem. Leia também: “Dois pesos, duas medidas”.

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Fontes: Avibras — Seu Dinheiro, CartaCapital, Forças Terrestres, Gazeta do Povo, CPG (Cade); energia — Jornal de Brasília/Folha, Canal Solar; encontros — Revista Oeste/Poder360, Terra Brasil Notícias, Gazeta do Povo; BNDES — Estado de Minas, Conjur, Agência Brasil, Mais Retorno; processos — CNN Brasil, Revista Oeste, CNN Brasil, Conjur, Migalhas, Correio Braziliense; JBS — Food Safety News, InvestNews, JBS/SEC.

Este texto é uma análise com opinião. Os fatos têm fonte; a avaliação jurídica das condutas cabe à Justiça.